Brasil, brasileiro. Identidade, pertencimento e nação.

Brasil, brasileiro. Vermelho de urucum. Yaci, 2022.

Discutir a formação da identidade brasileira ao longo do século XX é um assunto importante para refletir sobre como as coisas estão mudando no presente. Geralmente, a noção de pertencimento que os brasileiros têm pelo país se baseia na relação multicultural que fundou nossa civilização.

A noção aqui apresentada, ou seja, ligada aos pensamentos popularizados e hegemonizados, de alguma forma, no século XX, é que todos somos, apesar de nossas origens variáveis, parte de um mesmo povo. Um povo de muitos povos, que criou nossa própria cultura, conjunto de valores e espírito.

Nossa cultura nacional, portanto, é a conjunção temporal da cultura popular desses povos, desenvolvida pela classe trabalhadora e camponesa do meio urbano e rural. Apesar de suas origens distintas, em constante processo de transformar a si e aos outros, essa multi-relação moldou nossa identidade coletiva em uma identidade múltipla unificada, a identidade brasileira.

Se pudéssemos determinar um período em que o Brasil começou a desenvolver essa noção de si mesmo, muitos poderiam dizer que foi após o início do período republicano, no final do século xix. Embora os anos 20 também tenham sido muito significativos para as décadas seguintes, principalmente após a Revolução de 30 isso pode ser mais percebido, onde elementos da cultura popular e parte da agenda da classe trabalhadora foram integrados ao projeto de Estado do governo.

Durante o tempo colonial e imperial, esse processo ainda estava sendo moldado. Sobre esse período, também é possível lembrar das discussões sobre o “arquipélago de culturas regionais” que se comunicam mal entre si. Assim, a cultura e a identidade brasileira moderna estão alicerçadas na cultura popular e nas origens mistas de cada região.

Em certo sentido, o Brasil é um mundo em si mesmo. Nossa cultura, da forma como foi moldada e promovida no século XX, foi elemento de unidade e um escudo cultural também. O mesmo pode se dizer, resguardando as diferenças, quanto a nossa burocracia estatal.

No entanto, vale destacar a conhecida interação da elite com interesses econômicos estrangeiros, a histórica falta de brasilidade, suas desconexões com a cultura nacional e popular, e sua cultura paralela da elite, alheia a cultura do povo.

O projeto construído pela Revolução de 30, apesar do apoio de elementos da elite brasileira, foi uma exceção em nossa história. E, claro, como as elites do século XX decidiram utilizar os aspectos da cultura nacional para seus projetos também mudou ao longo do tempo.

Vale destacar também, embora este texto não explique mais a fundo, o desenvolvimento da cultura nacional como projeto de estado durante o século XX no mesmo ritmo que se nota, principalmente a partir de 1945, a abertura para a influência da cultura americana e sua respectiva visão de mundo. Isso é algo que foi sendo acelerado ao longo das décadas.

Mas, voltando a falar das culturas que moldaram a cultura brasileira, há casos e casos de como elas podem se perpetuar no tempo, como influenciam e como são influenciadas, como moldam e faz partem da própria cultura nacional.

Essa relação dialética histórica entre a cultura “local” (entendendo o local já como o processo de fusão e interação de muitas culturas) e a influência do que foi identificado como cultura estrangeira é antiga.

Embora o século XX tenha sido o florescimento de nossa cultura nacional, jaz uma dor na alma de nossa jovem nação. O problema daqueles brasileiros, a princípio principalmente de ascendência europeia, que não se identificam como parte da cultura e identidade brasileira, mas como algo à parte ou especial, de alguma forma sempre esteve presente.

Assim, se pode ser generalizado, há, por um lado, no século XX, uma tendência em certos estratos sociais de desprezar as características da cultura popular (nacional). Essa tendência está correlacionada com o olhar destes para a Europa como um guia moral da sociedade, encantados por alguma narrativa mística sobre o velho continente.

E, por outro lado, ao longo das décadas, houve também uma adesão aos dogmas políticos e econômicos norte-americanos, aumentando com a influência de sua cultura, o que encerra esse sentimento de distância e superioridade cultural.

Atualmente, principalmente no início do século XXI, a influência de algumas teorias sobre identidade e formas de fazer política, oriundas também dos Estados Unidos e da Europa, que não dão conta de compreender absolutamente o desenvolvimento de nossa própria história, fortalecem esse delicado problema.

Esses sentimentos de “desconexão” acabam por serem reforçados em outras camadas da sociedade brasileira, como entre determinados movimentos sociais acoplados ao liberalismo político moderno. Estes almejam ganhos mínimos para parcelas marginalizadas da sociedade através de instrumentos de promovem, principalmente, a ascensão social individual, não oferecendo soluções coletivas para os dilemas sociais relacionados a estrutura econômica que os sustenta.

O processo de como isso acontece com as parcelas marginalizadas da sociedade brasileira é significativamente diferente, mas o efeito é, em suma, o mesmo. Quebrar a identidade coletiva unificada e enfraquecer a coesão da luta da classe trabalhadora brasileira, moldada por muitos povos.

Esses sintomas estão um pouco longe de destruir irreversivelmente nossa noção de eu coletivo, pois, para o mal ou bem, ainda existe uma “barreira” cultural construída no século XX. Mas eles estão, de fato, mudando como, principalmente os mais jovens, se enxergam. Isso cria algumas expectativas ruins sobre a erosão da identidade coletiva em breve.

Refletindo mais sobre isso, no nosso caso, o que é mais preocupante e pode influenciar fortemente esse sentimento de desconexão com a noção de coletivo brasileiro é a falta de sentimento de cidadania devido ao fracasso de nosso estado social.

A noção de cidadania brasileira foi promovida, justamente, ao lado do sentimento de pertencimento a cultura nacional no século passado, e também é algo que está sendo gradualmente tirado de nós.

A interrupção do projeto popular brasileiro do século XX, sua completa degeneração e perversão com a ditadura militar… A transição acordada para a democracia liberal burguesa, e o ápice da decadência da sociedade burguesa, em que vivemos atualmente, condena os brasileiros a viverem como escravos modernos sem destino coletivo.

Um projeto de revolução social pode inevitavelmente resgatar a noção de pertencimento brasileiro. Essa noção de pertencimento está ligada aos frutos da cultura popular de cada uma das regiões do país que, integradas, não separadas, moldam essa civilização única.

Resgatar o sonho brasileiro e a originalidade da cultura brasileira está intimamente ligado à transformação econômica desta sociedade. Não há destino coletivo fora da ruptura econômica, política e social com os elementos que condicionam nossa escravidão.

Pois, somente a ruptura traz a possibilidade de, mais uma vez, reinventar o Brasil, através de uma nação com uma identidade múltipla unificada e a promoção de uma noção de cidadania que reflete o novo projeto econômico e civilizacional.

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filosofia da história, ciência política, poiesis e relações internacionais.

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