O que é o poder e como obtê-lo? Características do poder e os meios para alcançá-lo por Hobbes e Maquiavel.

The giant Gargantua destroyed the castle of the Ford of Vède with a tree as part of the pricrocholine war. Engraving by Gustave Doré of the first volume of the edition of Works of Rabelais in 1873 by the publisher Garnier Frères.

O conceito de poder é amplamente discutido nas Relações Internacionais e na Ciência Política, bem como em outras disciplinas do conhecimento. Em uma breve definição, é a capacidade de fazer cumprir determinado objetivo utilizando os meios disponíveis, tanto em grandes escalas (o poder do Estado, o poder do partido, o poder de uma organização, por exemplo) quanto em micro escalas (o poder de um indivíduo, por exemplo), e que pode ser exercido direta ou indiretamente. Exprime uma condição relacional, uma relação entre dois ou mais agentes e é, portanto, um poder político. Nesse sentido, há uma longa discussão sobre os meios para se conservá-lo ou adquiri-lo.

No entanto, existem outras diversas qualidades de poder, as quais não serão citadas. Os capítulos escolhidos para essa resenha abordam, a partir das perspectivas de Thomas Hobbes (1588–1679) e Nicolau Maquiavel (1469–1527), as características do poder e as qualidades desejáveis para adquiri-lo e mantê-lo. A saber, o capítulo X de “Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico ou Civil”, de título “Do poder, valor, dignidade, honra e merecimento” e os capítulos XV e XVI de “O Príncipe”, de título “Daquelas coisas pelas quais os homens, e especialmente os príncipes, são louvados ou vituperados” e “Da liberalidade e da parcimônia.

Para Hobbes, o poder de um indivíduo consiste nos “meios de que presentemente dispõe, para obter qualquer visível bem futuro” (p. 33). Pode ser um poder natural, que advém das capacidades do espírito e do corpo, ou um poder instrumental, adquirido a partir do primeiro ou através do acaso. Para o filósofo, o maior dos poderes que existe é o Estado, que incorpora os poderes dos demais indivíduos da sociedade, a partir do pacto social, e os detém na figura de uma única pessoa, o soberano.

Sendo o poder político, é crucial o estabelecimento de alianças, amigos e subordinados, pois tê-los é uma forma de adquirir, aumentar e conservar poder. Há diversas formas de conservar, adquirir, aumentar ou até mesmo aparentar poder. Das quais, se destacam:

  1. A reputação de um poder é uma forma de poder, pois pode influenciar aqueles que adquirem conhecimento dela. É, portanto, também uma forma de aparentar poder ou poder maior do que possui.
  2. Ser reconhecido como prudente na condução da guerra e da paz é poder, pois confere confiabilidade à condução do governo.
  3. As qualidades que fazem alguém ser considerado temido ou amado, também são formas de poder, porque atraem ou amedrontam aliados, inimigos, subordinados e amigos.
  4. A ciência, para Hobbes, é um pequeno poder, pois não era reconhecida por todos, apenas por aqueles que já a conheciam.
  5. As “artes de utilidade pública”, como instrumentos de guerra, de fortificação e de fabricação de máquinas, derivados da ciência, são poder, visto que consolidam os meios para a defesa e vitória.

Para o autor, é essencial que o indivíduo que dispor de riquezas as utilize com liberalidade, pois tal feito atrai alianças, amigos e subordinados. De outra forma, possuir riquezas e não utilizá-las com liberalidade pode conceder a ruína, visto que desperta inveja.

The celebration of the Peace of Münster, 18 June 1648, in the headquarters of the crossbowmen’s civic guard (St George guard), Amsterdam.

Ao entender o conceito de poder em seu aspecto político, Hobbes estabelece os critérios de valor, mérito e merecimento, relacionando-os com a determinação da extensão do poder de um indivíduo: O valor que um indivíduo possui em relação ao meio determina a extensão do seu poder. Possuir valor é ser honrado por outros, não possuir valor é ser desonrado por outros. A comparação do valor que o indivíduo atribui a si mesmo e o valor que os outros atribuem é necessária para compreender em que medida alguém é honrado ou desonrado.

Para Hobbes, é digno de honra “qualquer espécie de posse, ação ou qualidade que constitui argumento e sinal de poder” (p. 35). Possuir honra é uma prova do poder, uma “honraria natural”. A liberalidade, magnanimidade, coragem, esperança e confiança são qualidades honrosas. A parcimônia, a desconfiança e o medo são qualidades desonrosas.

De outra forma, o valor público, também chamado dignidade, é atribuído pelo Estado em forma de honrarias civis que podem ser temporárias e dependem da vontade do soberano. Ter méritos significa, da mesma forma, qualquer posse, ação ou qualidade que constitui argumento e sinal de poder, enquanto sinaliza um direito ao reconhecimento de tal.

Não pressupõe prévia aptidão ou adequação, como o caso do merecimento, reconhecido através da vasta experiência e dos feitos concluídos com sucesso, e que está relacionado a uma promessa feita por outrem, enquanto possuir méritos é uma questão de direito.

Hobbes, neste capítulo, enfatiza a característica política do poder, seja na busca pelo seu acréscimo através de alianças, mérito, honra, merecimento, entre outras qualidades, ou no estabelecimento do maior dos poderes, o Estado, na reunião de cada poder individual que imbui o soberano. O autor ressalta a liberalidade no gerenciamento das riquezas como uma qualidade desejosa, pois, em sua opinião, consegue atrair amigos, aliados e subordinados, uma forma de adquirir mais poder.

Niccolò Machiavelli in his study. Stefano Ussi (1894), Galleria Nazionale d’Arte Moderna e Contemporanea, Rome.

Maquiavel, nos dois capítulos referidos, realiza uma ponderação sobre as qualidades necessárias ao príncipe ao lidar com súditos, aliados e amigos, um meio, para ambos os autores, para adquirir, consolidar e conservar o poder. Para o diplomata italiano era primordial, antes de tudo, distinguir “como se vive de como se deveria viver” (p. 83) e ressaltar que as ações do príncipe devem ser baseadas nas condições atuais, não em expectativas ideais. Portanto, há que aprender a utilizar a bondade e a maldade nos momentos de conveniência.

Os indivíduos, no caso de Maquiavel, o príncipe, possuem algumas qualidades pelas quais podem merecer reconhecimento, a exemplo de louvor ou reprovação. E não possuindo o príncipe todas as qualidades desejáveis, deve ter prudência para não ser acometido pelos vícios decorrentes da ausência de todas as virtudes necessárias e, não podendo evitá-los, que saiba tolerá-los. O príncipe não deve temer ser reconhecido pelos vícios, pois para o filósofo, alguns vícios são necessários para a conservação do Estado, enquanto outras virtudes podem levar a sua ruína.

Para ambos os autores, a liberalidade no gerenciamento das riquezas é considerada um bem, uma qualidade que pode ser usada para adquirir e conservar o poder. No entanto, para Maquiavel, ser reconhecido por todos como um liberal pode ser prejudicial, ao contrário de Hobbes, que considera a liberalidade uma qualidade digna de honra, que depende do reconhecimento de outros.

Para o filósofo italiano, a liberalidade é uma qualidade que não deve ser conhecida, para evitar a possibilidade de ser acusado de miserável. Para Hobbes, possuir riqueza e não gerenciá-las com liberalidade, para atrair aliados, subordinados e amigos, pode trazer a ruína, dado que seu não uso atrai a inveja e a má fama.

Sustentar a fama de liberal requer altos custos, que podem influenciar na derrocada das finanças do Estado, criando animosidade no povo e tornando o príncipe odiável.

Uma vez conhecida, é necessário prudência e não se deixar influenciar pelas acusações de miserável, para que com o tempo os súditos percebam que sua liberalidade não os sobrecarrega, pois, possui uma atuação parcimoniosa, passando a enxergar esta qualidade como uma virtude, pois em verdade o príncipe será liberal com muitos, de quem nada tira, e mesquinho com poucos, para quem nada dá.

A prudência é necessária para que não roube dos súditos, para poder se defender, para que o Estado não empobreça e perca o prestígio, e ser acusado de ser miserável não é de todo mal, dado que a prudência é crucial para manter o poder. Portanto, é desejoso ser liberal com as riquezas de outros, pois aumenta a reputação, mas parcimonioso com as próprias riquezas, pois um gasto excessivo causaria prejuízos que levariam a perda da qualidade de ser reconhecido com um liberal, devido à pobreza iminente.

Para o filósofo italiano, é desejável que o príncipe evite ser odiado, e deseje ser amado ou, principalmente, temido. A liberalidade excessiva com a própria riqueza desperta o ódio do povo e evidencia os privilégios de poucos, fatores essenciais para a ruína. Portanto, é preferível ser acusado de ser miserável, o que, segundo o autor, não desperta o ódio, do que ser acusado de rapace, fator que desperta o ódio dos súditos.

Czar Alexander II, the ruler of Russia since 1855, is killed in the streets of St. Petersburg, 1881.

É possível perceber que ambos os autores partem de pressupostos semelhantes: Para Maquiavel, as qualidades que um indivíduo possui geram reconhecimento por parte de outros, como louvor ou reprovação e, para Hobbes, o valor de um indivíduo, extraído de qualidades, feitos e posses que, reconhecido por outros, determinam o grau de sua honra ou desonra.

Da mesma forma, ambos reconhecem, resguardando as respectivas diferenças, a importância da prudência na condução do Estado, como ferramenta que conserva e garante o poder. No caso de Maquiavel, a prudência no gerenciamento das riquezas, mesmo que sob acusações de ser miserável, é essencial para a conservação do Estado. Para Hobbes, ser considerado prudente na condução do governo em tempos de paz e de guerra é uma forma de poder, pois garante a confiabilidade e adesão de outros.

No entanto, os autores possuem visões distintas sobre a utilização da liberalidade como qualidade virtuosa para obter e conservar poder. E, por consequência, também divergem quanto à qualidade da parcimônia, visto que para o filósofo inglês, a parcimônia é uma qualidade desonrosa, enquanto para Maquiavel, é uma atitude virtuosa, pois está relacionada a prudência na condução das riquezas do governo.

O filósofo italiano considera que a liberalidade é um bem que não deve ser conhecido, para evitar as críticas de ser miserável ou rapace. Visto que não há como escondê-la, é necessário parcimônia na condução das riquezas, para evitar cultivar o ódio no povo e para não empobrecer o Estado, fatores cruciais para a ruína. A liberalidade, de outra forma, deve ser estimulada quando em posse das riquezas de outrem, nunca a partir de suas próprias riquezas.

Hobbes, no entanto, parece ter considerado a liberalidade como uma qualidade digna de honra, ou seja, reconhecimento de outros, por ser um meio de adquirir e conservar o poder, pois através dela consegue amigos, aliados e subordinados. Possuir riquezas e não as utilizá-las poderia atrair a ruína, dado que despertaria a inveja e a cobiça de outros.

Não é possível extrair uma conclusão absoluta apenas a partir dos materiais utilizados nessa resenha. Nem tampouco foi aqui abordado os contextos históricos nos quais os dois autores viviam, muito importante para a compreensão de suas razões em distintos períodos do processo de transformações do Estado moderno. No entanto, é possível inferir com base na análise comparativa dos capítulos e, principalmente, tratando-se da questão da condução da liberalidade pelo soberano, pelo indivíduo ou pelo príncipe, que o filósofo italiano considera crucial para a atuação do príncipe a consideração dos fatores que determinam a realidade ao entorno, ao prezar pela parcimônia na condução da riqueza, pois do contrário, despertaria o ódio do povo e a ruína do Estado. O autor fundamenta-se em experiências históricas para esta consideração.

De outro modo, Hobbes, ao pressupor a liberalidade como qualidade digna de honra, por ser um efetivo meio de obter aliados, amigos e subordinados, aparenta não considerar casos históricos como aqueles apresentados por Maquiavel, onde o abuso da riqueza despertou o ódio do povo e a ruína do Estado.

Sua linha de argumentação confere temor apenas aos casos em que, acusado de miserável, pudesse despertar a inveja de outros, o que parece indicar a consideração da liberalidade como uma qualidade desejável em todas as situações, considerando a qualidade ideal, nesse aspecto, acima das condições particulares.

Por fim, é plausível ambos os argumentos quanto ao despertar do ódio do povo ou da inveja de outros. No entanto, parece também ser verdade que, como ressaltou Maquiavel, algumas qualidades, aplicadas sem prudência, levam à ruína, enquanto alguns vícios, contraditoriamente, podem garantir, em determinadas situações, segurança e bem-estar.

Bibliografia:

Hobbes, Thomas. Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico ou Civil. Trad. de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. Disponível em: [x]

Maquiavel, Nicolau. O Príncipe. Trad. de Roberto Grassi. Edições Bestbolso. Rio de Janeiro. 2014. 1ª Ed.

Avaliação final para a disciplina de Teoria Aplicada às Relações Internacionais II (2021.1), do Departamento de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense.

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filosofia da história, ciência política, poiesis e relações internacionais.

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