Resenha: “Acertei no milhar”. A malandragem no tempo de Getúlio, de Cláudia Matos (p. 77–127).

Compositor Wilson Batista. Foto: Acervo ‘O Cruzeiro’.

Essa resenha é parte dos trabalhos avaliativos para o curso de verão do Programa de Pós-Graduação em História, em 2020.1. O tema: “90 anos da Revolução de 30 — principais aspectos políticos e culturais do governo Vargas (1930–1945)”.

O projeto governamental de Getúlio Vargas, em seu amplo aspecto político-cultural, com vistas a formar uma nova “mentalidade” para o povo brasileiro, decerto possuiu inúmeras ambiguidades quanto ao seu caráter de aplicação.

Seja através do novo modelo curricular para o ensino de História nas escolas secundárias, dos incentivos à modernização do teatro e da regulamentação das relações de trabalho da classe artística, ou da regulamentação do compositor de samba e, acrescido a isto, do incentivo do samba carioca ao status de elemento da cultura nacional; Vargas, como líder da Revolução de 30, encarna em seu projeto nacional-popular elementos da elite e elementos da classe trabalhadora.

Esta resenha centra-se apenas na relação dos sambistas cariocas com o chefe de governo, a partir da obra de Cláudia Matos, “Acertei no milhar”, sobre “malandragem no tempo de Getúlio”. Acrescentarei algumas reflexões feitas a partir de textos tratados em sala de aula, como o de Ângela de Castro Gomes, “História e Historiadores”, sobre o Estado Novo e a recuperação do passado brasileiro.

A obra Cláudia Matos exemplifica a relação entre os compositores de samba e a utilização do mito do malandro nos sambas cariocas desde a década de 20 como uma crítica política a falácia da acumulação de capital através do trabalho individual como forma de ascensão social garantida. O mito do malandro, portanto, em seu discurso, busca descortinar essa falsa relação, apresentando a dinâmica de classes da sociedade capitalista como sendo geograficamente limitada, a partir do “lugar do pobre” e do “lugar do rico”.

Tais lugares são tidos como bairros, moradias, lugares de trabalho, identidades culturais, restritas a determinados espaços na geografia do Estado do Rio de Janeiro. Desta forma, o proletário é confinado a seu espaço, e de forma alguma poderia adentrar o espaço “do outro”, se não fosse à serviço.

O malandro, a partir desse discurso de denúncia, é aquele proletário que, possuindo os elementos intelectuais necessários, consegue transcender essa barreira de classes e frequentar os espaços da elite, mesmo que correndo o risco da repressão por setores ligados a proteção dos interesses da burguesia.

O discurso do malandro, como denúncia das condições do trabalho na sociedade capitalista e dos valores da sociedade burguesa, é um discurso de fronteira, pois frequentemente faz uso da oposição entre malandro e otário, onde o otário é apresentado como, dentre outras formas de interpretar este conceito, o trabalhador conformado, sem habilidades para a realização da crítica.

No entanto, como a autora demonstra, este discurso sofrerá ligeira mudança a partir da década de 30, e, mais especialmente, com o Estado Novo, a partir de 1937. Getúlio Vargas, liderança da Revolução de 30, transformou as condições econômicas e sociais do Brasil a partir de um grande plano de ação do Estado que, em grande parte, superou as estruturas econômicas da Primeira República e inaugurou, como marco histórico, “um novo Brasil”.

A sociedade capitalista brasileira fora transformada a partir do desenvolvimento maciço das indústrias, dos modernos meios de comunicação em massa, da aplicação da legislação social e trabalhista e dos novos incentivos políticos e culturais instados para a formação de novas consciências que viessem a auxiliar o projeto do chefe de governo e na determinação dos elementos que formariam a cultura nacional.

Para tanto, a relação entre governo, classe trabalhadora, intelectuais e classe artística fora profundamente alterada, não encontrando parâmetros em nenhum período histórico brasileiro pré Revolução.

O chefe de governo, de tal forma, analisou determinadas demandas que vinham das classes trabalhadoras, intelectuais e artísticas de antes da Revolução de 30 e as incluiu como parte do seu projeto de “novo Estado”. O que justifica certo prestígio que Getúlio viera a receber de certas camadas populares da sociedade.

Contudo, a nova relação entre Estado e sociedade inaugurada com a Revolução de 30 não suplantou as características fundantes do sistema econômico capitalista, em certos aspectos a aprofundou, razão pela qual o discurso do malandro pôde subsistir como crítica ao trabalho no sistema capitalista, mesmo com os incentivos do Estado Novo, a partir de 1937, para um novo discurso no samba carioca.

O mito do malandro presente no samba carioca, através dessa relação ambígua de aproximação e rejeição dos compositores às políticas culturais do Estado Novo, pôde se apresentar, também, como discurso de “malandro restaurado”, do proletário saudoso de seus períodos de contravenção, mas que na atualidade “anda na linha”, integrando as fileiras do proletariado e os “bons valores” da sociedade brasileira.

De todo modo, a influência da política cultural do Estado no gênero do samba popular se dá com o objetivo de, ao relatar os dilemas do povo, integrá-los em um projeto coletivo de nação, onde cada trabalhador estivesse contribuindo para a construção de um novo país e, também, para sua própria ascensão social. Há, portanto, elementos morais burgueses, intrínsecos à sociedade de classes capitalistas, que àquela época foram importantes para a articulação do novo projeto cultural do Brasil.

O malandro, com seu “discurso de fresta”, pôde subsistir na medida em que aproximou-se e afastou-se do Estado, a partir das novas relações que foram criadas, operando uma dinâmica que aceita barganhar ou mesmo consente com certos pressupostos promovidos pelo Estado como parte deste novo projeto, ao mesmo tempo que rejeita outros, perpetuando, mesmo com todas as transformações que a Revolução de 30 proporcionou, o tom de denúncia ao trabalho organizado para a dinâmica capitalista do Brasil.

Ver fichamento.

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filosofia da história, ciência política, poiesis e relações internacionais.

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Yaci

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