“Utopia e Realidade”. Idealismo e realismo como métodos de abordagem segundo E. H. Carr.

O objetivo deste trabalho é comentar sobre as dicotomias presentes na Ciência Política e nas Relações Internacionais que se desenrolam a partir da dicotomia primária entre utopia e realidade.

Segundo E. H. Carr, essas dicotomias expressam distintos métodos de abordagem de pensamento e ação perante os dilemas políticos.

Será utilizado o segundo capítulo da obra de E. H. Carr, “Vinte Anos de Crise, 1919–1939”, de título “Utopia e Realidade”.

A partir desta dicotomia fundamental exemplificam-se outras: a dicotomia entre ética e política, livre arbítrio e determinismo, a relação entre teoria e prática, intelectual e burocrata e esquerda e direita.

O autor visa distinguir a atitude teórica, as práticas políticas e os vícios de teoria e prática destes distintos métodos, evidentes a partir da formulação teórica e ação de atores das relações internacionais que se filiam a estas formas de abordagem.

Para isso, utiliza exemplos históricos de nações, intelectuais, burocratas e diplomatas atuantes no final do século XIX e XX, à luz da crise da política internacional, objeto principal de sua obra.

A antítese entre utopia e realidade baseia-se principalmente em uma diferença entre abordagens realistas e idealistas em relação à ética e à política, que produzem diferentes teorias e ações em relação à realidade.

O idealista, baseado em um conjunto de princípios externos à política, define a ética à qual a realidade deve se adaptar. O realista, por outro lado, pensa a moralidade como relativa, dependente dos múltiplos fatores que regem cada contexto específico, onde a ética está ligada à ação política.

Pela antítese entre utopia e realidade, é desenvolvida também a dicotomia entre livre arbítrio e determinismo, que remete às práticas políticas que pode ter um utópico e um realista.

O autor prossegue ao afirmar que utópicos são, em geral, voluntaristas, pois acreditam ser possível sujeitar a realidade a partir do ato da vontade humana, por “criatividade espontânea” (p. 18).

Realistas, de outra forma, analisam “um curso de desenvolvimento predeterminado” (p. 17) e acreditam muitas das vezes que possuem poucas chances de influência sob esse curso que se move a partir de relações de causalidade.

Das distintas formas de agir politicamente, convém pontuar, consoante ao autor, a relação entre teoria e prática e como tais formas de abordagem enxergam essa relação. A relação entre teoria e prática é um dos problemas centrais do pensamento político, e ambos os métodos de abordagem distorcem essa relação.

Segundo o autor, os utópicos tendem a adotar a teoria como norma para a ação prática. Perseguindo seu objetivo a partir do compasso de seus princípios, considerando-os mais importantes que os fatos, enquanto os realistas veem a teoria como uma “codificação” (p. 18) da prática política, ou seja, o objetivo como produto mecânico de uma sucessão de fatos.

Ele cita, como um dos exemplos de um discurso utópico, a Declaração de Independência Americana, no que se refere ao trecho “todos os homens são criados iguais”.

Na verdade, o significado de tal trecho deve ser entendido mais como parte de um programa político do que uma declaração de um fato. Por conseguinte, utópicos atuam politicamente a partir de um conjunto de ideais que se pretendem como declarações de fato, mas que não os são.

De outra forma, realistas analisam tais discursos percebendo seus elementos políticos, portanto, não a priori, possibilitando-lhes enxergarem, em alguma medida, a forma pela qual tais elementos relacionam-se no discurso político e com a realidade.

Portanto, para o realista, a igualdade do homem é a ideologia dos não-privilegiados que procuram elevar-se até o nível dos privilegiados; a indivisibilidade da paz, a ideologia dos Estados que, estando particularmente expostos a ataques, ficam desejosos de estabelecer o princípio de que um ataque a eles é um assunto que deva preocupar outros Esta­dos mais afortunadamente situados”; a inépcia dos Estados soberanos, a ideologia das potências hegemônicas, que vêem na soberania de outros Estados uma barreira ao gozo de sua própria posição de predomínio. (p. 19)

No entanto, ao desconsiderar qualquer qualidade a priori das teorias políticas, apenas as fundamentando na prática política, realistas não raro incorrem em determinismo, “racionalização de um propósito condicionado e pré-determinado” (p. 20) que não possui as condições necessárias para transformar a realidade social.

A teoria, mesmo que desenvolvida através da prática política, possui um elemento transformador da sociedade. O processo político tampouco é uma sucessão mecânica de fatos e tampouco é uma mera aplicação de princípios advindos de consciências individuais iluminadas.

Carr considera que uma expressão concreta da relação entre teoria e prática se dá na dicotomia entre intelectuais e burocratas. Tal como idealistas e realistas, intelectuais tendem a pensar a partir de um conjunto de princípios a priori ou princípios gerais, desconsiderando outras forças externas que agem na política, enquanto burocratas apresentam a tendência a desenvolver um pensamento empírico.

Em paralelo, Woodrow Wilson merece destaque ao lado de outros intelectuais e idealistas, pois seu método político foi baseado em princípios que definem a sua atuação em cada contexto particular, julgando a atuação política de outros a partir da proximidade ou distância para com esses princípios.

Para o autor, os intelectuais exercem influência de liderança no movimento utópico dos tempos modernos. A dicotomia intelectuais-burocratas, segundo Carr, apareceu pela primeira vez no movimento operário no final do século XIX.

No entanto, a fraqueza dos intelectuais é a mesma dos idealistas, a saber, não compreender a realidade a partir do modo pelo qual os multi fatores a compõem.

Relacionado a essa falta de compreensão, que por muitas vezes pode ocorrer, há uma mistificação da camada de intelectuais, onde o autor afirma que para muitos, erroneamente, estes poderiam ser considerados em absoluto como “neutros”, “objetivos”, e fora do antagonismo da luta de classes. Qualquer pretensão à objetividade e imparcialidade poderia ser distorcida pela falta de compreensão da realidade que é, por conseguinte, traduzida em distanciamento das massas.

Na Alemanha, e em muitos países europeus menores, as constituições democráticas de 1919 foram fruto do trabalho de intelectuais devotados, e atingiram um alto grau de perfeição teórica. Mas quando ocorreu uma crise, esfacelaram-se quase em toda parte por não terem conseguido conquistar o apoio da massa da população. (p. 22)

Os burocratas, de outra forma, possuem um método de abordagem fundamentalmente empírico, baseando sua ação a partir do contexto de cada caso em particular, evitando guiar-se por princípios gerais.

Retiram da experiência empírica e não da formulação teórica o guia para a sua atuação. O burocrata está mais próximo que o intelectual da manutenção da ordem das coisas, da necessidade de conservar a tradição, por uma atuação política segura.

O vício do burocrata, portanto, é o formalismo de procedimentos que, a partir de uma consciência estreita, atesta possuir um conhecimento que nenhum outro intelectual possui. Condena a teoria, firma-se na prática política e, tal como o realista, na rotina dos processos, em sua causalidade. A política, para o burocrata, é um fim em si.

A oposição entre o intelectual e o burocrata foi particularmente proeminente na Grã-Bretanha durante os vinte anos entre as guerras, no campo das relações exteriores. Durante a Primeira Grande Guerra, a União pelo Controle Democrático (Union of Democratic Control), uma organização de intelectuais utópicos, moveu grandes esforços para popularizar a ideia de que a guerra decorria, em grande parte, do controle das relações exteriores em todos os países por diplomatas profissionais. (p. 25)

Derivada dessa dicotomia entre intelectuais e burocratas, há por vezes a oposição entre radical e conservador e entre esquerda e direita. Contudo, o autor pontua que esses termos não podem ser tratados em absoluto, mas apenas por tendências, e que não necessariamente os partidos sob essas siglas representam essas tendências. Os radicais possuem, segundo Carr, a tendência ao idealismo, enquanto os conservadores, ao realismo.

Nesse sentido, o autor estabelece o paralelo que relaciona a tendência de intelectuais utópicos a orbitarem o espectro político da esquerda, enquanto burocratas, a orbitarem o espectro da direita. As fraquezas de ambos, portanto, são similares às fraquezas de qualquer idealista e realista, o primeiro, a falta de conexão da teoria com a realidade, o segundo, a esterilidade da ação que não visa produzir mudanças.

Mesmo, segundo o autor, em países socialistas, como a União Soviética, aqueles que ocupavam a burocracia do Estado frequentemente entravam em dilemas internos entre intelectuais e burocratas, onde as contradições poderiam ser vistas sob o espectro direita-esquerda, idealismo-realismo, esquerdismo-revisionismo.

Em suma, no segundo capítulo da obra “Vinte Anos de Crise, 1919–1939”, Carr empenha-se em distinguir as distintas formas de teorização e ação que advém de uma dicotomia fundamental entre utopia e realidade e cita diversos exemplos históricos que comprovam essa distinção, cujo presente trabalho apenas destacou alguns.

Para o autor, ambos os métodos de abordagens possuem virtudes e deficiências. É uma necessidade, portanto, que o sujeito político sempre busque um equilíbrio entre às duas formas de abordagem para que, assim, possa analisar com ferramentas acuradas a realidade e, no que lhe concerne, formular ações que produzam transformações esperadas, visando mudar o curso do desenvolvimento histórico.

Há que reconhecer, portanto, a interdependência entre teoria e prática e utopia e realidade. O vício do realista é, justamente, considerar-se impotente para transformar a realidade, tornando sua atividade política completamente estéril, enquanto o do idealista é, ao contrário, não entender a realidade que tenta transformar, tornando sua prática política ingênua.

Este ensaio faz parte das avaliações para a disciplina de Teoria Política Aplicada às Relações Internacionais II, da graduação de Relações Internacionais do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense, durante o semestre de 2021.1.

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filosofia da história, ciência política, poiesis e relações internacionais.

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Yaci

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